A Escola precisa de internet, não de polícia, afirma professor Cid Carlos

A implantação de escolas cívico-militares, segundo o professor, não tem como objetivo melhorar o ensino, mas sim "silenciar as escolas"

Redação Voz de Uberlândia
Lida a 7 minutos
A escola não precisa de polícia. Nossa escola precisa de internet.

Na recente declaração do professor Cid Carlos, transmitida com força e indignação pelo seu perfil no Instagram, ecoa a voz de muitos educadores e comunidades escolares de Minas Gerais. Em um discurso firme e direto, ele denuncia a militarização das escolas públicas promovida pelo governo Romeu Zema (Novo) e levanta um debate urgente: o que falta nas escolas públicas não é disciplina, mas estrutura, respeito e investimento real.

Cid Carlos não fala só como professor, mas como representante de uma comunidade escolar que resiste à precarização, à privatização e à repressão disfarçada de civismo. Suas palavras escancaram um retrato do abandono da educação pública em Minas Gerais e em todo o Brasil.

“Não precisa de polícia. Nossa escola precisa de internet.”

A fala inicial do professor já define o tom do discurso. Em vez de presença militar, as escolas precisam de conectividade. O básico — uma internet que funcione, que permita aos professores passarem um simples filme, usar uma plataforma educacional, ou integrar os alunos ao mundo digital — ainda é um luxo em muitas unidades escolares.

A crítica é pontual e reveladora: enquanto o governo estadual investe em programas cívico-militares, falta infraestrutura mínima nas escolas. O recado é claro — a prioridade está invertida.

Faltam psicólogos. Faltam laboratórios. Faltam ônibus escolares.

A ausência de suporte psicossocial é uma das lacunas mais graves do sistema público. Após anos de pandemia, luto, fome e violência, as escolas viraram espaços de acolhimento de sofrimento. Mas onde estão os psicólogos? Onde estão os profissionais preparados para escutar e cuidar?

Pm nas escolas publicas do rj

Além disso, Cid Carlos denuncia a falta de laboratórios e de transporte escolar — ferramentas essenciais para garantir acesso igualitário ao aprendizado. Sem ônibus escolares, milhares de estudantes rurais ficam isolados. Sem laboratórios, o ensino de ciências, química e física se limita à teoria.

Professores mal pagos e invisíveis

“O Zema deu aumento de 300% no próprio salário e não paga nem o mínimo para a tia da cantina.” A comparação feita pelo professor é dura, mas necessária. Ela revela o abismo entre o discurso de austeridade do governo e a realidade dos trabalhadores da educação.

Enquanto o governador reajusta seu próprio salário em centenas de porcento, os servidores da escola — de professores a cozinheiras — recebem salários aviltantes, frequentemente atrasados, e sem perspectivas de valorização.

Militarização como estratégia de silenciamento

A implantação de escolas cívico-militares, segundo o professor, não tem como objetivo melhorar o ensino, mas sim “silenciar as escolas”. Ele denuncia o projeto como uma tentativa de repressão ideológica e controle. Ao substituir pedagogia por hierarquia militar, perde-se o espaço do diálogo, da crítica e da diversidade.

Cid Carlos alerta: a proposta não resolve os reais problemas da educação. Ao contrário, ela retira recursos de fundos federais destinados à educação pública e os transfere para estruturas militares — sem transparência, sem debate e sem resultados comprovados.

Resistência à privatização disfarçada

Em outro trecho, o professor lembra dos projetos de privatização das escolas, como o Projeto Somar, o Mãos Dadas, Trilha do Futuro e outros. Todos tentativas do governo Zema de transfere recursos da educação para o setor privado, sob a narrativa de eficiência.

Segundo Cid Carlos, esses projetos são “tiros no futuro” e atentam contra o direito constitucional à educação pública, gratuita e de qualidade. A resistência organizada por professores, pais, alunos e movimentos sociais impediu sua implementação plena, e a resposta do governo seria agora endurecer o controle.

Educação crítica incomoda

“A nossa escola sempre lutou contra o racismo, o machismo e a homofobia.” Esse trecho reafirma o papel das escolas como espaços de transformação social. E é justamente esse potencial crítico e libertador da educação que, segundo o professor, incomoda o governador e parte das elites.

Para ele, o projeto cívico-militar visa impedir que as crianças desenvolvam pensamento crítico. Ele acusa o governo de querer uma educação moldada na obediência cega, sem espaço para diversidade, questionamento ou consciência social.

Uma escola plural é uma ameaça para os que têm medo do povo educado

O professor afirma que o governador “odeia a educação porque sabe que ela transforma.” E de fato, a história mostra que onde há educação de qualidade, há cidadania, autonomia e resistência. Não é coincidência que projetos autoritários sempre tentem dominar ou silenciar os espaços escolares.

Ao defender uma escola plural, democrática e transformadora, Cid Carlos reafirma os pilares da educação pública como instrumento de justiça social.

“Vamos resistir até o fim”

Encerrando seu discurso, o professor conclama à resistência: “Diga não ao Zema. Diga não à militarização. Fora Zema! Vamos à luta e à vitória.”

O tom é de enfrentamento, mas também de esperança. Esperança em uma educação construída com diálogo, investimento e valorização. Esperança de que a comunidade escolar continue lutando — não só por internet ou psicólogos, mas pelo direito de existir com dignidade.

Reflexão final

A fala de Cid Carlos não é isolada. Ela expressa a realidade de milhares de escolas em Minas Gerais e no Brasil. A militarização, longe de resolver os problemas da educação, mascara-os e desvia recursos do que realmente importa.

Mais do que nunca, é necessário ouvir os educadores, reconhecer suas demandas e resistir à tentativa de transformar a escola em quartel.

Afinal, como lembra o professor:

“A educação faz esse país mudar. E é isso que tem incomodado tantas elites.”

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