Nem todo bolsonarista é fascista. Reconhecer isso é indispensável para compreender a força da direita radical e enfrentá-la democraticamente. Quando milhões de pessoas são reduzidas a um único rótulo, desaparecem as diferenças entre dirigentes autoritários, militantes ideológicos e eleitores movidos por medo, religião, antipetismo ou frustração. A condenação indistinta pode oferecer conforto aos progressistas, mas dificulta sua tarefa principal: disputar consciências, reconstruir vínculos populares e transformar insatisfação em participação política.
Pesquisas ajudam a enxergar essa diversidade. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, Esther Solano relata investigações realizadas com Camila Rocha entre eleitores populares de Bolsonaro, incluindo pessoas que anteriormente votaram em Lula e no PT. Surgem trajetórias, decepções e expectativas distintas. Essa circulação eleitoral impede tratar todo apoio ao bolsonarismo como adesão consciente a uma doutrina fascista. Também exige separar a caracterização de um movimento político das motivações particulares de quem o acompanha.
A distinção não absolve práticas autoritárias. Solano identifica no bolsonarismo a construção do adversário como inimigo, a agressividade política e o ataque às instituições democráticas. É possível reconhecer esse núcleo e, simultaneamente, perceber contradições em sua base social. Quem pretende construir uma maioria democrática precisa enfrentar os organizadores do autoritarismo sem declarar irrecuperável toda a população que eles conseguiram mobilizar. A responsabilidade pelos próprios atos permanece; a possibilidade de mudança também.
Olavo de Carvalho ocupa lugar importante nessa história. Sua influência ajudou a organizar uma linguagem de combate cultural, na qual universidades, imprensa e produção intelectual apareciam como territórios dominados pela esquerda. Leonardo Seabra Puglia, em estudo publicado na revista Teoria e Cultura, examina como intelectuais da direita interpretaram Gramsci para explicar a realidade brasileira e justificar sua intervenção pública. A denúncia de uma suposta hegemonia esquerdista tornou-se instrumento de mobilização.
No texto “Ocupando espaços”, de 2008, o próprio Olavo apresenta sua visão hostil do gramscismo, associando-o à conquista de posições e à exclusão de adversários. O documento comprova a centralidade dessa narrativa em seu pensamento; não comprova que sua descrição da esquerda fosse verdadeira. A hipótese que proponho é que, ao combater aquilo que atribuía aos adversários, o olavismo estimulou uma disputa persistente pela formação do senso comum. Sapientiam autem non vincit malitia
Isso permite falar em guerra de posição, desde que a expressão seja usada como interpretação, não como prova de um comando unificado. Olavo foi um articulador relevante, mas seria exagerado atribuir-lhe sozinho a ascensão da direita radical. André Singer, no artigo “A reativação da direita no Brasil”, mostra a persistência de predisposições conservadoras no eleitorado e argumenta que Bolsonaro as reativou em 2018. Havia, portanto, disposições sociais anteriores à propaganda que lhes deu expressão eleitoral.
O resultado pode ser interpretado como uma conquista de direção sobre parcelas mobilizadas da sociedade: aquilo que podemos chamar de massa ativa. Refiro-me às pessoas que participam continuamente da disputa pública, difundem interpretações, pressionam instituições e organizam outras pessoas. Isso não equivale a demonstrar hegemonia sobre toda a população. Tampouco existe, nas fontes aqui reunidas, uma medida única dessa massa ativa. A tese é política: organização duradoura pode conferir influência superior ao tamanho numérico de um grupo.
A eleição de 2022 ilustra a diferença entre conquistar a Presidência e alterar integralmente a correlação de forças. Segundo o TSE, Lula recebeu 50,9% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro alcançou 49,1%. Na Câmara, o PL elegeu 99 deputados, conforme a tabela oficial referente àquele pleito. A vitória presidencial conviveu, assim, com expressiva força eleitoral do campo adversário. As urnas encerraram uma disputa pelo Executivo; não encerraram o conflito pela direção do país.
Por isso, a advertência de que ganhar a eleição não basta merece ser levada a sério. Já a afirmação de que Lula não consegue governar precisa de precisão. A promulgação da reforma tributária, em dezembro de 2023, demonstra capacidade de produzir mudanças institucionais relevantes. O problema é outro: governar mediante negociações não significa reunir força suficiente para realizar todo um projeto transformador. A conquista de mandatos não substitui a construção de apoio organizado na sociedade.
Aos progressistas cabe perguntar por que uma política pública, mesmo necessária, não se converte automaticamente em consciência democrática. Melhorar renda, emprego e acesso a serviços é fundamental, mas as pessoas também interpretam a vida por referências morais, religiosas e comunitárias. Se essas experiências forem desprezadas, a comunicação política encontrará um limite. Não basta anunciar resultados: é preciso participar dos lugares onde os resultados ganham significado, onde se formam confiança, pertencimento e expectativas de futuro.
Defendo, portanto, um novo movimento de massas, plural e democrático, capaz de reunir reivindicações materiais e transformação cultural. Seu terreno está nos bairros, nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades, nas comunidades religiosas e nas associações. Sua tarefa começa pela escuta e pela organização de problemas concretos: transporte, moradia, segurança, alimentação, cuidado e trabalho digno. Uma força popular consistente precisa sobreviver ao calendário eleitoral e manter autonomia para cobrar também os governos que ajudou a eleger.
Essa reconstrução demanda uma reforma ética e moral da nação brasileira. A formulação ganha profundidade quando aproximada da reforma intelectual e moral de Gramsci: transformar a maneira como grupos sociais compreendem o mundo e participam da história. O estudo “A questão dos intelectuais em Gramsci” destaca a formação de consciência crítica e de vontade coletiva. Não se trata de impor costumes privados, mas de construir compromissos públicos com igualdade, liberdade, solidariedade e responsabilidade.
No Brasil, proponho dar conteúdo cotidiano a esses compromissos. Uma ética democrática deve recusar o racismo, a violência contra mulheres, a humilhação dos pobres e a corrupção, inclusive quando praticada por aliados. Deve reconhecer o direito à divergência e a dignidade de quem vive de maneira diferente. Para ser convincente, precisa aparecer na conduta das organizações, na transparência das decisões e na distribuição de poder. A pedagogia política perde autoridade quando o comportamento desmente o discurso.
Podemos atravessar um período histórico terrível, marcado pelo aprofundamento das hostilidades e pelo desgaste da convivência democrática. Mas chamar esse processo de catártico exige cuidado. Na tradição gramsciana, catarse designa a passagem de uma consciência estreita, presa a interesses imediatos, para uma compreensão ético-política mais ampla. O sofrimento, sozinho, não realiza essa passagem. Uma crise pode produzir solidariedade, mas também resignação, brutalidade e desejo de submissão a lideranças autoritárias.
A possibilidade catártica depende, portanto, de ação consciente. Será necessário transformar medo em compreensão, indignação em organização e demandas fragmentadas em projeto comum. Essa é uma aposta histórica, não uma previsão garantida pelas pesquisas. A direita radical mostrou força ao oferecer explicações e pertencimento a parcelas da população. Os progressistas precisam construir uma experiência democrática que responda às inseguranças reais e permita às pessoas reconhecerem a si mesmas como participantes das decisões coletivas.
Vencer eleições continua indispensável. Sem esse espaço, direitos e instituições ficam mais expostos. Mas a transformação brasileira exige continuidade entre voto, organização popular e prática ética. O desafio é formar uma maioria que sustente mudanças, fiscalize seus representantes e recuse soluções autoritárias. Essa construção exige paciência para conversar com quem discorda, firmeza diante da violência e disposição para reconhecer erros. Sem esses cuidados, a disputa política corre o risco de reproduzir os métodos que pretende superar. Nenhum salvador realizará essa tarefa pela sociedade. A democracia ganhará raízes quando deixar de ser apenas uma promessa dos governantes e passar a ser uma experiência cotidiana construída pelo próprio povo.











